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A Aposta Dupla da Netflix: O Luxo Claustrofóbico de Oasis e a Melancolia Animada de In Waves

ByAna Paula Ferreira

Mai 19, 2026

A Netflix parece estar recalibrando sua artilharia para os próximos meses. Em vez de atirar para todos os lados, a plataforma cravou duas novidades que mostram bem essa dualidade da sua estratégia de catálogo: um thriller espanhol cheio de segredos elitistas e a compra dos direitos de uma animação que arrancou aplausos na Semana da Crítica de Cannes. De um lado, o escapismo investigativo; do outro, a porrada emocional do cinema independente.

O paraíso que vira cena de crime

Para quem gosta daquela farofa investigativa com gente rica passando sufoco, marquem na agenda: 19 de junho. É quando o streaming faz a estreia global de Oasis. Criada por um time encabeçado por Ramón Campos e que conta com Jon de la Cuesta Olaizola, Javier Chacártegui Horrach, David Orea Arribas e Ricardo Jornet Gallego, a série tem o DNA inconfundível da Bambú Producciones. Desde 2008 no mercado europeu, a produtora já é velha conhecida de quem devorou títulos como As Telefonistas, Gran Hotel, Fariña e o mais recente e denso O Caso Asunta. Na produção executiva, Campos divide a bronca com Gema R. Neira, Jon de la Cuesta e David Pinillos.

A premissa joga o espectador direto no resort de luxo mais exclusivo e impenetrável do país. Praia particular, instalações VIP, segurança pesada e a promessa do melhor verão da sua vida. O problema é que a ilusão desmorona rápido quando a polícia invade o lugar por conta de um desaparecimento sombrio. De repente, o resort vira uma gaiola de ouro: ninguém entra, ninguém sai, e todo hóspede se torna um suspeito até que achem o culpado.

No centro dessa confusão, o elenco traz Ana Garcés (de A Promessa), Tomy Aguilera (Bem-vindos ao Éden) e Victoria Kantch (Por tus muertos). Junto a eles, nomes como Manel Duarte, Berta Castañé, Ada Molina, Cande Méndez, Alex Mola, Laura Simón, Jan Buxaderas, Amanda Palomino e Blas Polidori (de A Sociedade da Neve) dão vida aos hóspedes e funcionários cujos segredos ameaçam mudar os rumos da investigação o tempo todo. E como manda a tradição ibérica, a série ainda fisgou participações especiais pra dar aquela sustentação moral: Unax Ugalde, Alicia Borrachero, Mercedes Sampietro, Paco Tous e Verónica Sánchez também dão as caras na trama.

De Cannes para o resto do mundo

Se Oasis entrega o puro suco do suspense enlatado focado em entretenimento, o outro grande movimento da dona do streaming ataca por uma frente totalmente diferente. Num dos primeiros grandes acordos do Festival de Cannes de 2026, a Netflix passou a perna na concorrência e garantiu os direitos globais (exceto para a França, onde a distribuição fica com a Diaphana) de In Waves. O longa abriu a Semana da Crítica e despontou rapidamente como um dos títulos mais festejados das mostras paralelas, com a Variety rasgando elogios à forma elegante com que a obra lida com os sentimentos.

Com roteiro de Fanny Burdino e Samuel Doux, o filme adapta a aclamada graphic novel autobiográfica de AJ Dungo lançada em 2019. A direção fica a cargo de Phuong Mai Nguyen, que foge da estética padrão e abraça um tom muito mais cru e sensível sobre o amadurecimento. A história nos leva para Los Angeles e acompanha AJ, um adolescente tímido e vidrado em skate e desenho, que cruza o caminho de Kristen, uma surfista apaixonada pela vida. O romance decola, o futuro de ambos parece promissor, até que a garota é derrubada por uma doença súbita. O oceano, o surf e a rede de amigos viram o ponto de ancoragem do casal para lidar com as adversidades.

A produção é assinada pela Silex Films, com Priscilla Bertin e Judith Nora à frente do projeto que teve as vendas internacionais negociadas pela Charades. No áudio original, as vozes principais ganham o peso de Stephanie Hsu (que já tem indicação ao Oscar na bagagem) e Will Sharpe (vencedor do BAFTA). A dupla também atua na produção executiva do filme, encorpando um time que inclui David Levine e Nick Shumaker, da Anonymous Content, além de Yohann Comte, Carole Baraton e Pierre Mazars.

Tanto Priscilla Bertin quanto os executivos da Anonymous Content já cantaram a bola nos bastidores: essa parceria com a Netflix é exatamente o empurrão que eles precisavam para fazer essa história de amor verdadeiro e luto ressoar mundialmente na escala que merece.

Juntar esses dois anúncios numa mesma tacada diz bastante sobre o xadrez corporativo do streaming hoje. Eles sabem que precisam fisgar o assinante que só quer maratonar uma boa intriga espanhola no final de semana, mas não abrem mão do prestígio autoral de um selo Cannes. Fica no ar se a audiência vai absorver essas duas viagens tão distintas com a mesma intensidade com que a plataforma aposta nelas.